A cada ano que passa minha casa fica mais parecida com o que era no ano anterior. É essa conclusão a que chego esta noite.
Minhas roupas continuam as mesmas por anos (quando não encontro perdida alguma peça ainda mais antiga que me caiba), minha barba insiste em não crescer, mantendo sempre grossos e mal cortados os mesmos velhos parcos pêlos e, meu cabelo volta a cair na face, em cachos sujos e mal formados, como fizera já tantas outras vezes.
O acúmulo de notícias velhas de jornal de meu irmão trariam sempre à tona os acontecimentos, se a pilha de folhas que cresce não fosse enterrada a cada dia por um novo fato que se esquece.
Os entulhos de meu pai e as anotações de minha mãe, ambos professores, insistem em somar-se a cada momento, como se num futuro breve ou distante, ressurgissem para assumir alguma utilidade em nosso pequeno cosmo. Entretanto, parecem iniciar-se em sua cíclica e constante construção de um castelo de não-tijolos, mas, memórias esquecidas.
Assim sigo também. Resguardando tantas inutilidades, estudos e provas de uma educação completamente/ monotonamente normal (não fosse este hábito em si), escondendo de mim mesmo velhas revistas e jogos e brinquedos (!) e bilhetes (enquanto minhas notas de vida e desenhos sofrem do péssimo hábito que mantive: o costume de manter tudo aquilo que me agrada - nada - em descarte do que me descontentava - todo o resto -), multiplicando meu passado em gavetas e armários, enfeitando-o com pó e traças, divertindo o esquecimento com teias de aranha e fezes de ligeiras lagartixas.
Sim. Sofro de um mal de família. Nada aqui é jogado fora. Desdos fios de arame e parafusos e chumbadas-de-roda-de-automóvel encontrados nas ruas, até as quinze garrafas vazias de sucos de uvas de safras varias ou aqueles mesmos horrorosos enfeites de casamento, furtados em meio a ébria comemoração.
Sim, eis em minha cabeça mais uma pertinente motivação a alimentar meu medo de envelhecer. Enquanto deveria assumir minha condição de ser que evolui, ocupo-me em ser minha própria casa (dos mesmos azulejos e os sofás de minha bisavó). Meu desejo inconsciente de manter meu presente, conscientiza-se neste espaço. A estagnação adentra-me pelos olhos, nariz e ouvidos (nos mesmos estalares noturnos dos móveis, tique-taques do mesmo relógio e mesmo zunido da mesma geladeira usada) e faz de mim não um morador, mas simplesmente mais um objeto destinado a conservar-se num mesmo lugar, sobre o pó, nesta morada-museu-lapso temporal onde, com o passar do tempo, tudo se mantém.
Assim, só eu, desentendo e amo meu lugar-eu.
A Amanda, que colocou este fato em meus pensamentos.
A Beckett e o Primeiro Amor: isso! Retire toda a mobília do quarto!
Ao Ócio.