29/03/2011


Tem mesmo pouco sobre o homem que não exista no intervalo. Sobre todas as concessões que fazemos ao tempo, o maior pesar se deve as horas que fluem estritamente num sentido: o de tornarem-se cada vez mais vaporosas entre excessos e vazios. É um fluir que menos transborda, que mais se expande, que é mais capaz de tomar de assalto o ar dos pulmões. Mas não afoga, aconchega. E também afoga.
Da noção de tempo que se esvai (incontrolável em sua natureza autêntica, que assumia os riscos de um envelhecimento dos seres e das coisas), o homem que antes se notava pleno de si e das normas da sociedade moderna, passa a fundir-se então a todo o resto sem discriminação de entorno e interioridade. O ar, o tempo, os pulmões, a histeria de uma fragmentação da unidade humana são profundamente achatadas pela horizontalidade dos caminhos contemporâneos: o vazio se torna inevitável e insuportável.
Desencadeando a supressão de eventos, idéias e tecnologias, a fluidez temporal passa a culminar na supressão de “eus” em um único ser, que dotado de uma suposta liberdade de escolha diante dos fatos, posiciona-se sim aos pés de uma amorfa região de conceitos e valores desenraizados. Que liberdade há quando qualquer escolha é válida? Quando a determinação livre de estados supera a solidez da existência em prol de uma sobrevivência em região de acidentes?
O ar dos pulmões se torna atraente, a escolha de tê-lo dentro de si vaporiza um sem-fim de opções. Eis que, sedução surge como processo estritamente psicologizante e acompanhada dos demais processos de subjetivação do ser humano (entre os quais reinventados: a intuição, o amor, a igualdade, a humanidade, a liberdade, a própria natureza), aparenta reconhecer na positivação das relações – colapsadas – a criação de um universo pessoal autêntico.
À construção desse conteúdo que preenche rasamente nosso cotidiano, o advento do tempo torna saudosismo um acúmulo insustentável de fatos, fazendo do passado uma sucessão de presentes relativamente atuais, mas já ausentes de sentido. Qualquer escolha deixa de ser (ou passa a ser) válida quando submetida a um futuro evoluído, portanto, melhor, no entanto angustiante, enquanto desmerecedor do presente e possivelmente irrealizável. A evolução mais que percurso passa a ser sucessão. Imbuído do senso de liberdade de escolha, a elevação crescente desses valores auto-reconhecidos, é de fato uma invenção frágil sugerida pela contemporaneidade.
Se o pós-guerra fez explodir a idéia de instituição, elevando ao limite do descrédito humano tudo que não lhe pertença ao âmbito psicológico, a consideração sócio-histórica que reconhecia escola, igreja, família e cultura como entidades acima das capacidades de escolha, passou por transformação a ponto de individualizar as experiências sociais. Nessa dualidade temporal, o que antes se conceituava abelha, hoje se transmuta no zum zum zum incessante: a figura muito menos importa que a impressão ligeira que nos perturba os ouvidos e arrisca nossa pele.
Outra curiosa observação é a temporização dos espaços. O que antes se constituía como um lugar, como objetos de observação e durabilidade prolongada, atualmente se submete a uma questão de inversão de escala. O valor intrínseco dos conceitos passou a se caracterizar validade, ou data de validade.
A relação com os meios externos e com as demais pessoas passa a ocorrer limitada a uma espécie de razão temporal e somente ao prazer individual e este é o grande trunfo, ou grande vício contemporâneo: o prazer de se permitir agir e ter prazer, mesmo que as relações sejam todas fabricadas pelo processo psicológico, mesmo que a masturbação se torne a forma aparentemente mais autêntica, livre e pessoal de obtê-lo, claro, sem a interferência do outro.
O que se faz valer, cada vez mais é a aventura. Não exatamente em questão de risco, cada vez mais, pois, em termo de opções, de acúmulo (que não acumula, já que surpreende, supera). Acúmulo dos bens, das tecnologias, das relações sociais (não é preciso entrar no mérito das discussões sobre o universo virtual), das sensações, das emoções, dos minutos que contrariando a física deixam de ser absolutos, se alongam ou contraem em oposição aos anseios pessoais. Autonomia a plenos pulmões.
Não há aqui, senão exposição de idéias. O que insisto a duros golpes em dizer é: Vomito as horas! São trinta dentes, Maria! Dez dedos em cada lado do corpo, vinte e quatro anos, dois olhos que pairam rasos e se perdem no vapor. São trinta dentes! Que ruminam o acaso, mastigam a memória e acumulam nas gengivas a cor cinza do desagrado. Cutucam a sujeira oito unhas grossas, rijas do trabalho de escavar a própria carne em busca da profunda essência. Encontram resposta apenas duas, uma para cada olho, na mentira do espelho, no vapor do banho quente. Dos vinte e quatro anos, apenas catorze se sentem com a língua: os que estão na parte de cima da boca. Abaixo, apenas reflito, como o espelho. Apenas embaço, como a memória. Apenas mordo, como os anos. Devoro os dedos até punho.