Entre o término e o contínuo, todas duas chances imbecis foram dadas. Mesmo que lhe coubesse a obviedade da resposta, nada poderia ser dito que fosse verdadeiramente compreendido. O anseio de que viessem logo ali e desligassem todos os aparelhos minimizaria a piada que era notar que o ar dos pulmões preenchia-se irregularmente: um desajuste na máquina fazia o esquerdo encher antes que o direito estivesse completamente vazio. Ria por dentro. Obrigado a tanto, já que a vibração do diafragma ressoava na faringe emitindo os sons que antes se propusera voluntariamente a fabricar quando forçava uma risada para a desgraça do outro.
Não era médico, mas o estetoscópio lhe servia muito bem ao pesar sobre os ombros e pressionar as veias do pescoço dando-lhe um ar incomodado, irritado diante da própria docilidade. Aproximou-se. Arrancou os fios da tomada, cessou a energia, prendeu a respiração e foi-se. Há de florescer nos globos, pensou. A coisa verdade rendeu-se. A escolha coube (a pouco) a um desconhecido. Era assim, não se reconhecia mais.
Pois bem, desconectou os tubos, ergueu-se do leito, bateu no peito, alongou-se. Finda a demonstração colocou novamente o paletó e foi em busca do transporte para que fosse conduzido a uma nova simulação de eutanásia, três horas e treze minutos de distância. Chegou a pensar que era um bom emprego aquele: o salário não era ruim (era de poucos gastos afinal), sua tarefa, apesar de precisa, pouco trabalhosa. Mantendo-se paralisado enquanto atores (passando-se por familiares), médicos e toda a comissão de ética dos hospitais discutiam seu fim iminente, podia colocar em ordem, em sua cabeça, todas as questões que lhe eram permanentemente acometidas.
Calçou os sapatos, caminhou vinte e sete minutos até a estação. Como era quase meio-dia, seu estômago deveria estar roncando, como usualmente fazia. Outra vantagem de seu trabalho: podia usufruir integralmente de sua hora de almoço, estendê-la todo o dia, já que era alimentado por soro, via intravenosa (afinal, não poderiam cessar a reunião da cúpula para que o doente terminal fosse à cafeteria). Também não carecia preocupar-se com as necessidades, a sonda não lhe incomodava tanto, a fralda um pouco mais, entretanto, sentia-se bem ao lhe darem um banho a quatro mãos. Quando um homem, então, teria esse benefício? As enfermeiras, mesmo que não lhe agradassem muito, também não eram de todo mal, e seu treinamento permitia deslocar o campo de visão para onde quer que fosse sem que precisasse movimentar o globo ocular sequer um milímetro. Serviam-no livremente.
Esperar a condução que não vinha por pouco mais de doze minutos tornava-o impaciente. Duas horas e vinte e um minutos à frente teria seu maior trabalho, no Hospital Central do Estado. Seria a maior equipe assistindo-o e demonstrando pontualmente todas as possibilidades de vida ou morte no Congresso Nacional Anual da Sociedade Médica! Seu antecessor, no ano anterior, lembra perfeitamente, ficou nada menos que duzentas e vinte e três horas e quarenta e quatro minutos em coma simulado. Era um grande homem, mas não era um profissional como ele e chegando ao fim de sua jornada não resistiu. Uma mosca pousou lhe na face e o fez piscar a cinco horas e um minuto de seu fim. Uma vergonha, pensou. Reflexo involuntário, esquivaram os médicos da equipe, acontece periodicamente com pacientes em coma profundo. Substituíram-no. Teria agora sua grande chance.
Mais dezessete minutos se passam e nada. A cada instante via que seu tempo de preparação e concentração diante da tarefa de sua vida diminuía. Cogitou que se atrasasse muito mais não lhe dariam importância alguma. Não poderiam substituí-lo! Talvez até o fizessem por um paciente verdadeiramente em coma, somente este trabalharia tão bem se lhe coubesse a escolha. Mas não há como, pensou melhor: nos tempos atuais jamais permitiriam que houvesse sua exposição assim, sem sua própria permissão. Lembrou então de um episódio, enquanto a televisão perturbava sua ordem de visão, em que assistira um documentário sobre a performance de um costarriquenho que amarrou e deixou morrer de fome um cão numa galeria em Manágua. Não entendeu, porém riu daquilo ao imaginar a comissão de ética julgando a fatalidade do animal, depois achou um absurdo atentar contra a vida desta maneira. Sentiu-se mal imaginando se lhe cortassem o soro e diante seu trabalho fosse impedido de reclamá-lo.
Ao longe, quase uma hora de espera, avista, finalmente, a condução. Teria que usar a imaginação para passar o tempo da viagem. Pensava que se o serviço de transporte fosse tão eficaz quanto seu trabalho, o expresso já existiria ali há alguns anos. Tinha certeza, pois, acima de tudo, que era um servente fiel da sociedade. Os avanços que as discussões trariam para o prolongamento da vida levariam consigo o nome do homem profundamente empenhado em sua tarefa. Existia afinal como sujeito a dedicar a vida para que a vida de tantos outros fosse prolongada (no fundo sempre contava com a extensão de todos os prazos). No entanto, não lhe cabia a escolha, dependia de todos os procedimentos de conduta e ação. E agia, ali, perfeitamente imóvel! Como não?