Tão logo tenha tocado, com a ponta dos dedos, a lâmina de uma navalha cega, pensei: há de ser coisa muito boa a alma do homem que vê, entre todas as mil almas que o habitam, a saída estricta entre o corte e o punho firme que carrega o instrumento, que dilacera o ato no vazio, que rompe o silêncio em música (um blues - do delta), que expõe em cheio o desejo de uma noite mui bem dormida.
Da carne jorra a saída:
- É uma vida só, Maria! Por que não escorre de uma só vez a areia que é teu corpo de tempo?
- Tenho preguiça.
- Então vai! Pára de curvar teu presente! Abre a vida pra teus sonhos! Quebra esse vidro!
- [suspiro] É coisa muito boa que se faça.
- Agora sim. A conta, por favor.